segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Comentário - Os seus problemas acabaram!!! [Casseta e Planeta] (2006)

O FILMIO, FOI FEITCHIO, COM O SINGÉLIO OBIJETÍVIU, DE DIVERTÍRIU
O auê aí é o ói!
Esse filme serviu de continuação informal para 2002 A taça do mundo é nossa. O enredo se desenvolve primordialmente dentro de um tribunal, onde é travada a luta entre o advogado idealista Botelho Pinto (Murilo Benício) e a assistente Priscila (Maria Paula Fidalgo) contra as Organizações Tabajara sob a acusação de que teriam usado um cosmético de testes no paciente (digo, cobaia) Lindauro das Dores(Bussunda) que causou inesperados efeitos colaterais. Atrelado a isso, Botelho nutre um ódio de uma vida pela multinacional que, segundo o seu flashback, foi a responsável pela ração contaminada que transformou seu carneiro de estimação num animal pervertido e incendiário que tocou fogo no orfanato em que passou a infância. Os advogados de gel no cabelo farão de tudo para provar a inocência das Organizações e que Botelho não passa de um oportunista descabelado.
O humor do filme se baseia em maneirismos, piadas sem a mínima lógica, trocadilhos que se valem tanto do léxico quanto das imagens, personagens estereotipados e com defeitos de pronúncia, escárnio, palavrões, portuglês, referências e paródias e uma grande surpresa no final. Uma bela salada humorística; tudo e mais um pouco que um filme de comédia precisa ter. Se o Casseta & Planeta usa isso da melhor maneira possível? Sim. E o tempo todo, eu diria. É incrível a capacidade dos caras de espremer uma situação pra retirar todas as possibilidades dela; tudo vira piada. E é essa a grande pretensão do filme: transformar tudo numa grande piada. É um filme que entende o que é mas nem por isso se limita; vai além do imaginável para nos fazer rir. Utilizando, primordialmente, da honestidade. E por isso talvez seja tão bom, tão aproveitável e tão memorável. Se você algum dia pegar um filme e passar tempos e tempos lembrando de cenas dele, pode ter certeza que aquele é um bom filme.
Se eu fosse citar algumas das piadas memoráveis em cena, eu iria produzir um texto enorme e mais cansativo do que críticas são geralmente, e talvez spoilar mais do que pretendo, mas vamos lá. Como não lembrar de uma das primeiras cenas, quando, no tribunal, o juiz pede silêncio e tem um cara com uma britadeira numa obra dentro do recinto? Ou dos jornais anunciando o caso das Organizações Tabajara, com a paródia de Larry King que no final de uma frase fala "the book is on the table"? Ou os cartazes de manifesto nada-a-ver com "Liberdade a Mário" - "Que mário?" - "Aquele que te carcou atrás do armário"? Ou a consciente participação de Juliana Paes num comercial onde ela é nada mais que a gostosa? Ou o efeito colateral do cara que tem a bunda pra frente? É tudo louco e muito hilário, é uma das pérolas do nosso cinema, sacaneando, quem diria, até o próprio, em cenas onde um taxista afirma que, se aquele é um filme brasileiro, então ele deveria mostrar penúria, guerra ao tráfico e personagens favelados, ou quando os dois policiais que se afirmam gringos tem vozes amplamente conhecidas de dubladores brasileiros e uma dublagem intencionalmente mal feita.
O que dizer dos personagens? Eu poderia muito bem ser chato e afirmar que são mal construídos, mas o quão bundão eu não estaria sendo?! Os personagens são tão bacanas que oscilam entre o inovador e o estereótipo de forma convincente e engraçada. A lida com estereótipos fica bem clara na frase de Ubiracy: "eu era um sujeito normal, igual a todo mundo, sempre acima do peso e sem saco pra fazer ginástica". E como se não bastasse a forma como Os seus problemas acabaram funciona bem, no clímax do filme o enredo nos entrega um personagem em desenho animado que atua com o vilão e instantaneamente se integra à história, provando que a equipe do Casseta não teme em experimentar e arriscar. E bingo, eles acertam! O único defeito desse personagem é ter pouco tempo de cena. Na verdade, o filme só falha em ser tão curto, porque seria um prazer ter mais e mais minutos diversão com o Casseta & Planeta.
A dica é: assistam esse filme. Diversão é garantida. O que você poderia querer mais?
Consideração: este foi o último trabalho de Bussunda, então também por isso é tão notável. Bussunda atuou principalmente como Lindauro e o irmão surfista de Priscila, cujas únicas palavras são "O auê aí é o ói" (pelo que eu consegui entender), e rouba a cena sempre que aparece, provando o grande humorista que era o Bussunda.
Consideração2: esperem os créditos terminarem.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Mundo Proibido [Cool World] (1992) com Brad Pitt e Kim Basinger - Comentário

O SUBMUNDO DOS DESENHOS ANIMADOS
Sempre me interessou a ideia de filmes que traziam um misto de desenho animado e atores reais (e as várias abordagens em que isso pode ser concebido). A ideia, soa, sim, interessante, e muito melhor quando gera resultados convincentes, como em Uma Cilada Para Roger Rabbit de 1988, e Space Jam de 1998. O que não foi alcançado, porém, por Mundo Proibido, do diretor Ralph Bakshi, por alguma razões que habitam a minha opinião.
A proposta do filme é levar o cartunista Jack Deebs (Gabriel Byrnes), famoso por criar o gibi Mundo Legal e também por acabar de sair da prisão por matar o cara que encontrou na cama com sua ex-esposa, para o mundo criado por ele mesmo. E aí vem o primeiro deslize do filme (furos de roteiro): pra quem assistiu, não vai compreender por que, de uma hora pra outra, Jack começa a ter estranhos sonhos em que, de forma verossímil, ele passa a habitar o Mundo Legal.
Aí que somos apresentados à personagem que era uma das apostas o filme: Holli Would (Kim Basinger), uma dançarina desenho aos moldes de Marilyn Monroe (e, curiosamente, fã da mesma), que sonha em ir pro mundo real e fazer parte dele. A questão é que, para se tornar de carne e osso, os desenhos precisam ter relações sexuais com pessoas de carne e osso, e é no momento que Jack começa a dar pitacos no Mundo Legal, que Holli vê a oportunidade perfeita de realizar seu sonho.
O problema é que Frank Harris(Brad Pitt), o xerife em carne e osso de Mundo Legal, sabe que, pela lei natural, o sonho de Holli e a tentação de Jack é algo condenável, uma violação que aparentemente levaria ao rompimento do tênue equilíbrio que existe entre o mundo real e o mundo dos desenhos. E aí habita outro problema do filme, de modo que nós, telespectadores, só vamos entender tal motivo para os tantos avisos de Frank para Holli, quando as cenas do filme já estão a mil. É tudo muito rápido, difícil de digerir, algo um pouco ímpar ao que nós somos acostumados a ver numa tela de cinema; quando chegarmos a compreender, percebemos algo interessante que, porém, não foi tratado com carinho pelo roteirista.
E roteiro é tudo; quando o roteiro falha, começamos aos poucos a odiar os aspectos do filme, por mais que ele tenha boas sacadas. Por isso eu tive muito cuidado pra não esquecer delas; que devam ser o único motivo (além do tempo) pelo qual Cool World é considerado um filme cult.
Um destaque, inicialmente, para a trilha sonora; eletrizante, sem espaços pra temas clássicos, com uma batida constante, acompanhando as cenas em que Holli aparece (quase sempre fazendo passos de dança). Mundo Legal, só no nome; na verdade, o mundo criado por Jack Deebs se assemelha a uma gigantesca cidade gângster de prédios tortuosos (e eu falo sério quando digo "tortuosos"), com pouca iluminação e cenários underground. Os personagens de desenho não soam amigáveis em momento algum; na maior parte do tempo eles estão se violentando, mijando um no outro, fazendo gestos obscenos, falando palavrões... mas, como todo bom desenho, eles podem se machucar o quanto quiserem, que nunca vão morrer. A diferença é que a atmosfera de Mundo Legal faz com que suas atitudes sejam levadas mais a sério pelo público, que, nesse caso, deve ter mais de 16 anos (!!!).
E há algumas referências um tanto pobres mas destacáveis a Tom e Jerry, que em Mundo Legal são retratados como um gato de um rato que trocam porradas um contra o outro. Instantes depois, chega um rato em preto e branco muito parecido com Mickey Mouse soltando gargalhadas. Em outra cena, um estabelecimento tem a logomarca que se parece muito com a cara do Patolino. Ou seja, muito interessante, se o roteirista não fosse tão preguiçoso com as cenas que elabora.
Holli Would é uma personagem bem divertida. É engraçado ver como ela se comporta ao estar no mundo real, e sua determinação em conseguir o que quer ao ponto de se tornar a vilã do filme (ou, diria eu, o conflito do filme), ou a forma que ela encontra pra fazer com que Jack entenda que estar em Mundo Legal não é um sonho (queimando sua mão com um cigarro), ou como ela cita acontecimentos relacionados a Marilyn Monroe para justificar suas decisões. Afinal, essa é Holli Would: ela bebe, ela fuma, ela dança de vestido tubinho... ela só não é melhor que Jessica Rabbit (aushduashdas). O cartunista Jack foi pouco explorado: fica difícil entender que só a sensualidade de Holli teria levado ele a apoiar a peleja dela. O xerife Frank, que mantém uma delicada relação com um desenho (algo dualístico, pois isso é justamente o que ele tenta combater, mas que é explicado bem no filme), também foi pouco explorado, embora o único personagem no filme digno de profundidade emocional.
E um roteirista ruim leva a sua ruindade até o final, e é o que mais decepciona em Cool World. Um desfecho, na minha opinião e na de todo mundo mesmo, sofrível. Um final que me fez questionar por qual motivo eu assisti quase duas horas do filme. Então a dica é: não garanto que vai ser uma experiência agradável, mas quem gostar do estilo e de filmes antigos, Cool World tá no cardápio.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Comentário - A Batalha dos Cinco Exércitos

TEM SPOILER!!! TIREM QUEM AINDA NÃO ASSISTIU DA SALA!
A Batalha dos Cinco Exércitos é o longa que fecha a trilogia O Hobbit que adaptou do volume único de fantasia do mesmo nome de JRR Tolkien, mas disso você já sabia. Mais do que isso, fecha o arco dramático da história iniciada nos filmes anteriores (ou no mínimo se propõe a isso), levando às conclusões e atribulações finais da jornada iniciada pelos anões para recuperar o antigo reino de Erebor ao lado de Gandalf e Bilbo do Condado, e em segundo plano, se propondo a criar as bases para os conflitos subsequentes que seriam (já foram) contados em Senhor dos Anéis. Desse ponto de vista, o filme se sai muito bem; não sei se a eterna ligação que se faz entre O Hobbit e Senhor do Anéis seja algo ruim. Entretanto pra mim não tem problema, afinal, uma história se baseia nos fatos ocorridos na outra, embora a impressão que passe é que O Hobbit é dependente de Senhor dos Anéis, e não o contrário, que era o mais lógico por ter acontecimentos cronologicamente anteriores (pelo motivo que o grande triunfo ainda foi Senhor dos Anéis). Mas vamo parar de ser chato: Peter Jackson, no final das contas, entregou um desfecho digno de Terra Média pra história que quis começar.
Eu sempre digo que quando aponto um ou dois ou até três problemas num filme, isso quer dizer que eu gostei do filme, pois quer dizer que só existem esses mesmo. E talvez seja esse meu posicionamento quanto à este filme; um posicionamento um tanto duvidoso, eu confesso, porque eu me considero fã da obra de Tolkien e dos filmes também, e tudo que vier a respeito de Senhor dos Anéis que tiver um tantinho de dignidade, eu engulo, e aplaudo, e defendo e convido alguém pra assistir comigo. Mas como autor desse comentário, eu vou sair da minha pele e tentar ser o mais imparcial possível.
O filme começa eletrizante, isso é certo. Smaug deixa de ser uma criaturinha que bate papo com hobbits e mostar do que realmente é capaz sobre a má-fadada Cidade do Lago. Porém essa cena me recorda do final de A Desolação de Smaug, um final tosco, com a dignidade de uma novela como Avenida Brasil, que no momento do ápice terminava com a imagem congelando e aquela música lá. A cena inicial funciona bem e é importante, já que em meados do filme assuntos relacionados a ela retomam discurso, mas parece que ela só existia no filme por não ter entrado no final do outro. E mais uma vez, a cena é foda.
Outra crítica é em relação ao desfecho do filme; ao esclarecimento de uma resolução em particular... Do tipo, Erebor ficou sem rei, como é que é isso? E agora José? Obvio que existe uma solução, mas ela não foi apresentada de forma clara ou mesmo subjetiva no filme, sendo que de certa forma o protagonismo da trama era toda sobre Erebor, antes de Bilbo, Thorin. Erebor era a grande sacada de tudo, que levou tudo a acabar como acabou. Eu careci de esclarecimentos, mas... nada!
Se a primeira e segunda parte eram aventuras, essa terceira é um épico de guerra. Eu podia separar meia hora das duas horas e meia de projeção em que os personagem não se confrontam ou se discutem. O todo o resto possui uma atmosfera de tensão constante ou ação pungente com uma forte trilha sonora ora com temas novos, ora com as melodias que foram tocadas em Senhor dos Anéis, reafirmando, através do meio técnico, a ligação que ambas as histórias devem ter. E os efeitos especiais realizam seu triunfo.
Na boa, por que ainda existe gente que se contorce com efeitos especiais de computação gráfica? Cara, isso era nos anos 90 (e quando o negócio era bem trabalhado, nos entregavam pérolas como Parque dos Dinossauros). Efeito especial não soa mais falso em produções que utilizam dele com consciência, aí você vai duvidar das decisões de Peter Jackson, que já levou 200 Oscars com Senhor dos Anéis?! Não, o efeito especial aqui nos faz esquecer que, pelo menos na prática, aqueles orcs e águias e construções monumentais só existem na imaginação; quando o orc brada um martelo contra alguém, você sente o peso daquele personagem, sente a presença dele na cena. O que você podia querer mais? Um manolo escroto com uma fantasia de borracha ressecada? Poupai-me da sua chatice.
Existindo, além de tudo, para explicar as bases dos conflitos que enraizaram a trama em Senhor dos Anéis, A Batalha dos Cinco Exércitos e, de um modo geral, O Hobbit, cumprem muito bem esse papel. Todas as motivações dos personagens, todas as decisões cometidas parecem de forma perfeita gerar a bola de neve que se esbarrou para que, num futuro não muito distante, mais quatro hobbits partissem de Bolsão em outra jornada inesperada.
E um auê muito grande à sacada genial que acontece nas cenas entre Bilbo e Thorin, este consumido pela tal "doença da montanha" que sina todo rei a enlouquecer de ganância e obsessão pelo ouro. Perceba como gradualmente, na mente de Bilbo, a voz de Thorin passa a soar como a voz de Smaug, fazendo-o associar a personalidade de ambos. É claro que você percebeu isso. Eu achei genial.
E por fim, talvez uma das cenas que mais me emocionou, nos últimos segundos de filme. Nos deparamos com uma cena que figurou em Sociedade do Anel porém filmada de um ângulo diferente (não me pergunte como conseguiram fazer isso; apenas regorgeie mais uma conquista por parte de Peter Jackson e sua equipe competente - ou equipetente). Ouvimos as vozes que rolaram na passagem, só que distantes, enquanto a câmera se direciona a um pergaminho com um mapa (provavelmente, toda a Terra Média). Como você já leu/assistiu, você sabia que Gandalf ainda voltaria a visitar Bilbo Bolseiro. O Hobbit deveria existir apenas para explicar essa segunda visita, mas Peter Jackson nos entregou mais uma obra digna de aplausos, suor másculo escorrendo pelo olho e que fiquemos sentados até os créditos acabarem.
Ps.: Eu não fiquei porque tava de carona.
Consideração1: Algumas coisas são explicadas da forma menos didática possível, sendo que alguém que não conhece os personagens e a história (anterior e futura) não vai entender ou até mesmo se entediar. Mas, afinal, o que uma pessoa dessas estaria fazendo numa sessão de O Hobbit? (rsrs)
Consideração2: Tauriel :´)
Consideração pouco considerável: Os cinco exércitos mencionados no título de forma convencionada me parecem ser: o exército dos anões, dos humanos, dos elfos, e os dois exércitos de orcs.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Valente (Brave) - Comentário

Um filme Pixar dirigido por Brenda Chapman
Merida, em meio à sociedade viking, é a princesa filha de Fergus e Eleonor, criada em meio às exigências de etiqueta que a sua mãe fazia, o que ia de contrapartida à personalidade destemida da jovem. Merida passa os dias sob a sombra da mãe, numa eterna rotina de treinamento espontâneo para se tornar uma princesa exemplar, e dia ou outro tem a liberdade que almeja para cavalgar sobre Angus pela floresta, disparar flechas, escalar cascatas e fazer o que bem entender. Merida se constitui inteiramente disso e nem um pouco do que o seu cotidiano tenta pregar. Num momento, Eleonor fala "Uma princesa não põe suas armas na mesa. Na verdade, uma princesa nem devia ter armas!". Nesse conflito, a trama do filme se levanta e se incendeia quando a princesa recebe a informação que a sua mão será prometida a um dos filhos dos chefes dos outros clãs como forma de aliança. Merida, absolutamente contrariada, entendendo que aquilo representaria o total cerceamento de suas liberdades, se envolve com um feitiço que poderá mudar o destino das pessoas que a rodeiam.
O que Valente traz de estranho, ou de tosco, primeiramente, é a oscilação por parte da produção em tornar aquilo um musical ou não. No início do filme Merida entoa uma música quase ao estilo Disney anos 90, e no restante essa característica parece ter sido esquecida ou ignorada. Logo após o início do filme, há num plano bem aberto apresentado o reino viking com uma narração em off, o que lembra bastante o título Como Treinar o Seu Dragão; curiosamente e irritantemente, o filme também termina assim. E por último, um melodramatismo imenso em certos momentos não-oportunos que me deixou com uma pulga atrás da orelha; é como se os produtores tivessem entendido que o que se requisitava, após a decepção crítica de Carros 2, era um filme em que no final todos caíssem às lágrimas com melodrama, não entendendo que a proposta da Pixar sempre foi justamente outra com filmes como Monstro SA e Procurando Nemo. A questão é que, quase sempre, seja onde for, o melodramatismo soa idiota e até falso. Concebido como uma forma de encontrar com o universo Disney que trouxe cenários em florestas densas pincelados em Bambi e Branca de Neve, os produtores parecem não ter conseguido isso muito bem por causa de outros fatores, já que o referido "universo Disney" não se resume apenas a criar uma floresta com aquela mesma atmosfera; e dessa forma, a própria assinatura Pixar acabou sendo perdida no meio daquela floresta.
E são vários pontos onde Valente acertou, afinal, eu jamais disse que o filme é ruim. Pixar, até hoje, desde as primeiras produções nos anos 90, não fez filme ruim. Orçado em 185 milhões, a equipe técnica artística prova mais uma vez o quando é perita no negócio, sabendo usar cada centavo dedicado a esta parte ao seu favor. A maior e mais comentada conquista é o cabelo de Merida, na verdade uma cabeleira; extremamente volumoso, cacheado e ruivo ainda por cima, que se destaca de forma retumbante sobre o verde e, em certa cena, o cinza da floresta. O cabelo age com uma beleza tão natural que (risos) provavelmente nenhuma atriz de carne-e-osso poderia performar. Mas isso não deve ofuscar os outros atributos técnicos, como a própria concepção da floresta, que é profundamente realista, se encaixa bem com os personagens (que também são incríveis, eu me pergunto como a equipe artística consegue tanto realismo em personagens tão cartunizados...). A relação entre Merida e sua mãe, que na maior parte do filme é conflituosa por vários motivos, é também muito bem construída de forma a não se comportar clichê diante de tantos outros filmes chatos sobre adolescentes; o que geralmente tínhamos eram mães acolhedoras e pais repreensores, e aqui, a diretora Brenda Chapman conseguiu fazer o inverso da coisa: o pai é o cara gente boa, e a mãe é o algoz.
Porém, como eu já disse, o conflito se resolve numa cena absolutamente melodramática, o que o aproximou da maioria dos filmes que são feitos e o distanciou da originalidade das outras produções pixarianas. E o filme se encerra num plano de afastamento mostrando como a vida dos personagens acabou em comunhão e sob a narração em off da personagem a là ComoTreinarDragão. Sem a mínima abordagem de como, a partir dali, ficou a relação mãe-e-filha entre Eleonor e Merida. Problemas que a Pixar tem que sanar daqui pra frente pra que volte a fazer filmes memoráveis. A dica final é: assista "Valente". :)
Consideração 1: um salve aos 3 gêmeos irmãos de Merida, a cota humorística do filme e que se encaixam muito bem em vários momentos da trama, não soando baratos ou irrisórios; pelo contrário, são ágeis e engraçados.
Consideração 2: houve críticas expressando que faltou humor em ''Valente''. Pau no cu delas. Há humor na medida certa no filme, que não constitui uma comédia, e sim uma aventura. Na verdade o que tinha por trás era um crítico ignorante e de visão estreita. Já chega de criar diretrizes pra filmes de animação. Não sei onde foi escrito que animações precisavam ser engraçadas.