O SUBMUNDO DOS DESENHOS ANIMADOS
Sempre me interessou a ideia de filmes que traziam um misto de desenho animado e atores reais (e as várias abordagens em que isso pode ser concebido). A ideia, soa, sim, interessante, e muito melhor quando gera resultados convincentes, como em Uma Cilada Para Roger Rabbit de 1988, e Space Jam de 1998. O que não foi alcançado, porém, por Mundo Proibido, do diretor Ralph Bakshi, por alguma razões que habitam a minha opinião.A proposta do filme é levar o cartunista Jack Deebs (Gabriel Byrnes), famoso por criar o gibi Mundo Legal e também por acabar de sair da prisão por matar o cara que encontrou na cama com sua ex-esposa, para o mundo criado por ele mesmo. E aí vem o primeiro deslize do filme (furos de roteiro): pra quem assistiu, não vai compreender por que, de uma hora pra outra, Jack começa a ter estranhos sonhos em que, de forma verossímil, ele passa a habitar o Mundo Legal.
Aí que somos apresentados à personagem que era uma das apostas o filme: Holli Would (Kim Basinger), uma dançarina desenho aos moldes de Marilyn Monroe (e, curiosamente, fã da mesma), que sonha em ir pro mundo real e fazer parte dele. A questão é que, para se tornar de carne e osso, os desenhos precisam ter relações sexuais com pessoas de carne e osso, e é no momento que Jack começa a dar pitacos no Mundo Legal, que Holli vê a oportunidade perfeita de realizar seu sonho.
O problema é que Frank Harris(Brad Pitt), o xerife em carne e osso de Mundo Legal, sabe que, pela lei natural, o sonho de Holli e a tentação de Jack é algo condenável, uma violação que aparentemente levaria ao rompimento do tênue equilíbrio que existe entre o mundo real e o mundo dos desenhos. E aí habita outro problema do filme, de modo que nós, telespectadores, só vamos entender tal motivo para os tantos avisos de Frank para Holli, quando as cenas do filme já estão a mil. É tudo muito rápido, difícil de digerir, algo um pouco ímpar ao que nós somos acostumados a ver numa tela de cinema; quando chegarmos a compreender, percebemos algo interessante que, porém, não foi tratado com carinho pelo roteirista.
E roteiro é tudo; quando o roteiro falha, começamos aos poucos a odiar os aspectos do filme, por mais que ele tenha boas sacadas. Por isso eu tive muito cuidado pra não esquecer delas; que devam ser o único motivo (além do tempo) pelo qual Cool World é considerado um filme cult.
Um destaque, inicialmente, para a trilha sonora; eletrizante, sem espaços pra temas clássicos, com uma batida constante, acompanhando as cenas em que Holli aparece (quase sempre fazendo passos de dança). Mundo Legal, só no nome; na verdade, o mundo criado por Jack Deebs se assemelha a uma gigantesca cidade gângster de prédios tortuosos (e eu falo sério quando digo "tortuosos"), com pouca iluminação e cenários underground. Os personagens de desenho não soam amigáveis em momento algum; na maior parte do tempo eles estão se violentando, mijando um no outro, fazendo gestos obscenos, falando palavrões... mas, como todo bom desenho, eles podem se machucar o quanto quiserem, que nunca vão morrer. A diferença é que a atmosfera de Mundo Legal faz com que suas atitudes sejam levadas mais a sério pelo público, que, nesse caso, deve ter mais de 16 anos (!!!).
E há algumas referências um tanto pobres mas destacáveis a Tom e Jerry, que em Mundo Legal são retratados como um gato de um rato que trocam porradas um contra o outro. Instantes depois, chega um rato em preto e branco muito parecido com Mickey Mouse soltando gargalhadas. Em outra cena, um estabelecimento tem a logomarca que se parece muito com a cara do Patolino. Ou seja, muito interessante, se o roteirista não fosse tão preguiçoso com as cenas que elabora.
Holli Would é uma personagem bem divertida. É engraçado ver como ela se comporta ao estar no mundo real, e sua determinação em conseguir o que quer ao ponto de se tornar a vilã do filme (ou, diria eu, o conflito do filme), ou a forma que ela encontra pra fazer com que Jack entenda que estar em Mundo Legal não é um sonho (queimando sua mão com um cigarro), ou como ela cita acontecimentos relacionados a Marilyn Monroe para justificar suas decisões. Afinal, essa é Holli Would: ela bebe, ela fuma, ela dança de vestido tubinho... ela só não é melhor que Jessica Rabbit (aushduashdas). O cartunista Jack foi pouco explorado: fica difícil entender que só a sensualidade de Holli teria levado ele a apoiar a peleja dela. O xerife Frank, que mantém uma delicada relação com um desenho (algo dualístico, pois isso é justamente o que ele tenta combater, mas que é explicado bem no filme), também foi pouco explorado, embora o único personagem no filme digno de profundidade emocional.

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