A volta da Pixar aos cinemas
A Pixar começou nos anos 80 como uma repartição da LucasFilm, uma mera empresa de efeitos especiais, menor que ILM (a maior empresa de efeitos especiais desde aquela época, até hoje). Comprada por Steve Jobs (CEO da Apple) em meados dos 80 e presidida por Ed Catmull, demorou mais algum tempo pra que o sucesso de Toy Story (1995), dirigido pela mente de John Lasseter e realizado numa parceria milionária com Walt Disney Company, colocasse a antiga empresa de software no gosto popular. Hoje a Pixar é reconhecidamente por leigos e críticos, um dos maiores centros criativos de cinema. Seus filmes ultrapassaram fronteiras, derrubaram barreiras, quebraram recordes. É admirável quando uma empresa atinge tal realização; se fala em diretores, como o Brad Bird (Os Incríveis), Lee Unkrich (Toy 3), mas também se fala em "filme da Pixar". Isso se tornou um sinônimo de qualidade e de trabalhos artísticos que, disfarçados de produtos, levam milhões de pessoas às salas de cinema e, no final das contas, algumas indicações e estatuetas no Oscar.
A grande sacada da Pixar são suas histórias sem fórmula pronta. Esse atributo gera um escandaloso individualismo em filmes como Monstros S.A.(2001), um trabalho que mostra o quanto é gostoso e às vezes até um pouco raro ir no cinema e sair com a impressão de ter assistido um filme realmente bom. Tal característica que passou a se desgastar nos filmes pós-Toy Story 3 (2010), e embora não se possa dizer que sejam filmes ruins, a equipe criativa da Pixar começou a dar sinais que estaria, quem sabe, perdida nas próprias decisões. Eis que, após o lançamento da prequel Universidade Monstros (2013), e ante o adiamento, por uma questão de mudança de diretor, do filme que sairia em 2014, O Bom Dinossauro (que ficou pro início de 2016), a Pixar toma uma decisão gratificante: dar aquela velha parada para rever seus conceitos. Desde o lançamento de Universidade, não se ouviu falar em filme novo da Pixar.
Inicialmente divulgado como um filme que e passaria dentro da cabeça de uma menina de 11 anos, hoje já temos vastas informações do que pode nos esperar em Divertida Mente. Dois trailers, sendo o primeiro utilizado para apresentar Reily, uma menina de pré-adolescente, e os sub-protagonistas da história, os sentimentos que habitam a cabeça e Reily: Medo, Tristeza, Alegria, Nojinho e Raiva. Ou serão eles também protagonistas já que, at all, representam a própria Reily em si? Um questionamento muito interessante que a pegada do filme nos levanta. Também são apresentados os sentimentos do pai e da mãe, que com certeza vão garantir a cota de gargalhada durante o filme. Reily, por sua vez, me parece ser a cota dramática; como é mostrada no trailer, é uma menina problemática, confusa, e não só por ser pré-adolescente, mas como foi revelado do roteiro, acaba de se mudar do interior para São Francisco. De acordo com o trailer #2, as questões surgem quando duas das emoções de Reily acabam se perdendo, e então a menina passa realmente enfrentar problemas.
Torço pra que as atitudes de Reily fluam com naturalidade embora saibamos que, segundo a lógica do filme, existem entidades que controlam a menina como um todo. É bastante sensato que o filme trate de emoções e até de maneira bastante plausível, então eu sugiro que se prepare pra uma avalanche delas durante esse filme. É um dos que mais me empolgam esse ano, e não é pra menos. E a trilha sonora no trailer #2, a música More Than a Feeling, nada mais justo. Pixar, você sabe SIM como fazer um filme.
Em se tratando do teor macro, isto é, a mãe, o pai, a própria Reily e quem quer mais que componha essa história de antemão fantástica, o trailer mostra alguns relances de cenas legais, o que indica que eles não vão ser esquecidos, como poderia-se supor.
É inegável que um filme com essa lógica se mostra como um grande desafio pra quem quer que esteja envolvido na sua realização. E são eles: Pete Docter, que volta a assinar um filme Pixar após os bem-sucedidos Monstros S.A. e Up(2009), e Michael Arndt como roteirista, após ter escrito os roteiros de Pequena Miss Sunshine e Toy Story 3. Esses caras não tão pra brincadeira.
Mas nem tudo são flores e, logo ao lançar do primeiro trailer, começaram a surgir comentários no Youtube, plataforma principal onde foi divulgado, que pareciam predizer todo o filme de forma absurda. As acusações falavam de personagens estereotipados, como a menina com problemas de pré-adolescência, o pai que, durante o jantar, fica pensando a respeito do último jogo de futebol. O que pra mim fica desmentido quando um dos sentimentos da mãe, em relação ao marido, acaba soltando: "Foi por ISSO que largamos aquele piloto brasileiro?!" ou quando os sentimentos do pai se reúnem numa operação para que ele "dê piti" durante o jantar. É hilário, é Pixar. Questionamentos a respeito do (aparente) sexo das entidades que representam os sentimentos em Riley: temos a equipe de cinco sentimentos que se portam como homens no pai, cinco que se portam como mulheres na mãe, e na cabeça de Riley, temos 3 que parecem meninas e 2 que parecem meninos, o que levantou suspeitas de que a menina também pudesse ter problemas de sexualidade durante a história. Será que a Pixar iria tão longe? Bem, se isso acontecer, há de ser absolutamente sutil. Empresas como a Pixar costumam gastar milhões em seus filmes e esperar retorno disso (mas é claro!!!), e uma história em que a protagonista sofre desse tipo de problema tende a causar tanto estardalhaço quanto más números em bilheteria... enfim, não é sequer sensato que se exija isso. Mas se acontecer, por mim, poderá ser um passo à frente, e não uma amarelada bacana como no filme Como Treinar o Seu Dragão 2, que prometeu lidar com um personagem gay e, quando eu assisti, vi apenas uma abobalhada insinuação.
Enfim, vou esperar ansiosamente por este filme! :)
Consideração: Existe uma piada no trailer que poucos vão entender... eu pelo menos só entendi quando fui pesquisar. Em certo momento, Medo pergunta pra Nojinho e Raiva: "Aquilo foi um urso?!", Nojinho responde: "Não tem ursos em São Francisco.", e Raiva retorque: "Eu vi um tipo muito cabeludo. Parecia
um Urso". Pois saibam que Ursos em São Francisco são uma popular comunidade gay de homens que ignoram os padrões de beleza da comunidade gay mainstream, eis a razão por serem "cabeludos". Raiva respondeu a pergunta de acordo com suas convicções e, pros que entenderam, acabou gerando uma gag muito legal.