domingo, 7 de dezembro de 2014

Valente (Brave) - Comentário

Um filme Pixar dirigido por Brenda Chapman
Merida, em meio à sociedade viking, é a princesa filha de Fergus e Eleonor, criada em meio às exigências de etiqueta que a sua mãe fazia, o que ia de contrapartida à personalidade destemida da jovem. Merida passa os dias sob a sombra da mãe, numa eterna rotina de treinamento espontâneo para se tornar uma princesa exemplar, e dia ou outro tem a liberdade que almeja para cavalgar sobre Angus pela floresta, disparar flechas, escalar cascatas e fazer o que bem entender. Merida se constitui inteiramente disso e nem um pouco do que o seu cotidiano tenta pregar. Num momento, Eleonor fala "Uma princesa não põe suas armas na mesa. Na verdade, uma princesa nem devia ter armas!". Nesse conflito, a trama do filme se levanta e se incendeia quando a princesa recebe a informação que a sua mão será prometida a um dos filhos dos chefes dos outros clãs como forma de aliança. Merida, absolutamente contrariada, entendendo que aquilo representaria o total cerceamento de suas liberdades, se envolve com um feitiço que poderá mudar o destino das pessoas que a rodeiam.
O que Valente traz de estranho, ou de tosco, primeiramente, é a oscilação por parte da produção em tornar aquilo um musical ou não. No início do filme Merida entoa uma música quase ao estilo Disney anos 90, e no restante essa característica parece ter sido esquecida ou ignorada. Logo após o início do filme, há num plano bem aberto apresentado o reino viking com uma narração em off, o que lembra bastante o título Como Treinar o Seu Dragão; curiosamente e irritantemente, o filme também termina assim. E por último, um melodramatismo imenso em certos momentos não-oportunos que me deixou com uma pulga atrás da orelha; é como se os produtores tivessem entendido que o que se requisitava, após a decepção crítica de Carros 2, era um filme em que no final todos caíssem às lágrimas com melodrama, não entendendo que a proposta da Pixar sempre foi justamente outra com filmes como Monstro SA e Procurando Nemo. A questão é que, quase sempre, seja onde for, o melodramatismo soa idiota e até falso. Concebido como uma forma de encontrar com o universo Disney que trouxe cenários em florestas densas pincelados em Bambi e Branca de Neve, os produtores parecem não ter conseguido isso muito bem por causa de outros fatores, já que o referido "universo Disney" não se resume apenas a criar uma floresta com aquela mesma atmosfera; e dessa forma, a própria assinatura Pixar acabou sendo perdida no meio daquela floresta.
E são vários pontos onde Valente acertou, afinal, eu jamais disse que o filme é ruim. Pixar, até hoje, desde as primeiras produções nos anos 90, não fez filme ruim. Orçado em 185 milhões, a equipe técnica artística prova mais uma vez o quando é perita no negócio, sabendo usar cada centavo dedicado a esta parte ao seu favor. A maior e mais comentada conquista é o cabelo de Merida, na verdade uma cabeleira; extremamente volumoso, cacheado e ruivo ainda por cima, que se destaca de forma retumbante sobre o verde e, em certa cena, o cinza da floresta. O cabelo age com uma beleza tão natural que (risos) provavelmente nenhuma atriz de carne-e-osso poderia performar. Mas isso não deve ofuscar os outros atributos técnicos, como a própria concepção da floresta, que é profundamente realista, se encaixa bem com os personagens (que também são incríveis, eu me pergunto como a equipe artística consegue tanto realismo em personagens tão cartunizados...). A relação entre Merida e sua mãe, que na maior parte do filme é conflituosa por vários motivos, é também muito bem construída de forma a não se comportar clichê diante de tantos outros filmes chatos sobre adolescentes; o que geralmente tínhamos eram mães acolhedoras e pais repreensores, e aqui, a diretora Brenda Chapman conseguiu fazer o inverso da coisa: o pai é o cara gente boa, e a mãe é o algoz.
Porém, como eu já disse, o conflito se resolve numa cena absolutamente melodramática, o que o aproximou da maioria dos filmes que são feitos e o distanciou da originalidade das outras produções pixarianas. E o filme se encerra num plano de afastamento mostrando como a vida dos personagens acabou em comunhão e sob a narração em off da personagem a là ComoTreinarDragão. Sem a mínima abordagem de como, a partir dali, ficou a relação mãe-e-filha entre Eleonor e Merida. Problemas que a Pixar tem que sanar daqui pra frente pra que volte a fazer filmes memoráveis. A dica final é: assista "Valente". :)
Consideração 1: um salve aos 3 gêmeos irmãos de Merida, a cota humorística do filme e que se encaixam muito bem em vários momentos da trama, não soando baratos ou irrisórios; pelo contrário, são ágeis e engraçados.
Consideração 2: houve críticas expressando que faltou humor em ''Valente''. Pau no cu delas. Há humor na medida certa no filme, que não constitui uma comédia, e sim uma aventura. Na verdade o que tinha por trás era um crítico ignorante e de visão estreita. Já chega de criar diretrizes pra filmes de animação. Não sei onde foi escrito que animações precisavam ser engraçadas.

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