No texto anterior, no qual eu desferi um contra-argumento ao
recente longa-metragem da Disney, Frozen, me confessei motivado pelo que chamei
de “Sentimento Anti-Disney” da primeira vez que tive contato com a história.
Mas se você não sabe ou não entendeu o que é isso, aqui vão
os meus esclarecimentos.
Em 1999, o cisne cantou pro chamado Renascimento da Disney,
marcado inicialmente por Pequena Sereia em 1989. Os anos 2000 trouxeram inúmeros insucessos de
público e, de maneira mais gritante, de crítica. Uma sucessão de produções cada
vez mais medíocres, menos memoráveis ou simplesmente vislumbrando venda de
produtos. Foi assim com A Nova Onda do Imperador, Atlantis, Lilo e Stitch
(embora eu goste desse filme), Nem que a Vaca Tussa, Irmão Urso. A cada passo,
a Disney parecia escorregar mais pra dentro do penhasco. E aí veio a decisão
mais patética do estúdio: fechar o departamento de animação tradicional para
cinema, e dedicar a força artística pra produções apenas aos moldes da Pixar e
Dreamworks, em CGI. Não tava ca peste de não funcionar!
E não funcionou. Na verdade, a porra toda só fez piorar.
Ora, Disney, mas que decisão foi essa? Não é a linguagem que o filme usa, se é
tradicional, se é CGI, que vai determinar o sucesso dele entre o público.
Críticos, então, odiaram (eu odiei); mas a Disney precisava urgentemente fazer
milhões com seus filmes no mercado que dominou nos anos 90 diante das novas
concorrências. Os executivos de maneira ingênua acharam que isso resolveria,
sendo que a deficiência real, provavelmente, era no departamento criativo do
estúdio.
E aí vieram abortos, né. Nem sei se você, leitor, vai se
lembrar desses filmes, mas vamos lá. A primeira bomba foi Chicken Little
(2004), que ainda era digno por conta o humor afiado e pelas referências à
cultura pop (tem piada com Barbra Streisand e Star Wars). Aí veio Selvagem
(2006), que era a história de pai e filho, leões, enfrentando conflitos de
convivência, que subitamente, ao lado de uma girafa, uma cobra, e um koala,
saem do zoológico em Nova York e são acidentalmente despejados na mata selvagem,
desafiados a se adaptar àquele ambiente. Algum filme parecido?! PERAÍ,
DISNEY!!! E veio Bolt (2008), com John Travolta e Miley Cyrus, a história de um
cachorro astro de TV, que quando atua com a sua dona, acredita que realmente está
salvando aquela garota. Uma boa premissa. E os roteiristas ainda conseguiram
banalizar isso, não apresentado ação suficiente no terceiro ato como o início do filme
propusera de forma eletrizante (e eu não to falando de bombas explodindo) e não
aproveitando a relação entre o cachorro e a garota, entregando um final
totalmente MindFuck.
O sentimento Anti-Disney, então, se tornou comum na maioria das pessoas que acompanhavam a grade do estúdio (principalmente aquele relacionado à animações, o The Walt Disney Animation), a partir dos anos 2000, diante do declinável interesse por parte da equipe criativa de desenvolver enredos tão envolventes e personagens tão memoráveis (se não for pedir demais) quando O Rei Leão (1994). E foi o que, em partes, me cegou enquanto eu assistia a comédia Frozen de 2013, e é o que ainda cega muitas pessoas que falam por aí das produções da empresa. Eles vão no YouTube e comentam "Frozen sucks" nos vídeos relacionados, "Frozen é uma bosta".
No final dos anos 2000, num acordo bilionário, a Disney
comprou a Pixar e permitiu que o seu chefão, John Lasseter, assumisse na
gigante o cargo de diretor criativo. Todo filme da Disney agora teria o dedo
dele. E que dedo! Assim que Lasseter assumiu o cargo, tomou, na minha opinião,
uma das decisões mais lindas: fazer um filme em animação tradicional. É de
despejar suor másculo pelas glândulas oculares. Foi A Princesa e o Sapo (2009),
um musical belíssimo ambientado na Nova Orleães da Belle Époque que apresentou a primeira protagonista negra da história
do estúdio.
Agora a Disney apresenta ares de mudança. Com A Princesa e o
Sapo, provou que ainda tem dignidade e respeita os planos pintados à mão nos
quais ergueu o seu império. Com Enrolados (2010), provou que histórias sobre
princesas e ladrões nunca deixam de ser cativantes. Com Frozen (2013), um filme
que não preciso de muitas linhas pra dizer que é belíssimo, provou que ainda tem
muito pra nos oferecer, singelos e exigentes admiradores. Foi assim nos anos
90, e tá sendo assim atualmente.
O sentimento anti-Disney se dissipa aqui; não tem mais razão
pra existir. Disney, nós te amamos. :D

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