segunda-feira, 10 de novembro de 2014

O que é o "sentimento Anti-Disney"?

No texto anterior, no qual eu desferi um contra-argumento ao recente longa-metragem da Disney, Frozen, me confessei motivado pelo que chamei de “Sentimento Anti-Disney” da primeira vez que tive contato com a história.
Mas se você não sabe ou não entendeu o que é isso, aqui vão os meus esclarecimentos.
Em 1999, o cisne cantou pro chamado Renascimento da Disney, marcado inicialmente por Pequena Sereia em 1989.  Os anos 2000 trouxeram inúmeros insucessos de público e, de maneira mais gritante, de crítica. Uma sucessão de produções cada vez mais medíocres, menos memoráveis ou simplesmente vislumbrando venda de produtos. Foi assim com A Nova Onda do Imperador, Atlantis, Lilo e Stitch (embora eu goste desse filme), Nem que a Vaca Tussa, Irmão Urso. A cada passo, a Disney parecia escorregar mais pra dentro do penhasco. E aí veio a decisão mais patética do estúdio: fechar o departamento de animação tradicional para cinema, e dedicar a força artística pra produções apenas aos moldes da Pixar e Dreamworks, em CGI. Não tava ca peste de não funcionar!
E não funcionou. Na verdade, a porra toda só fez piorar. Ora, Disney, mas que decisão foi essa? Não é a linguagem que o filme usa, se é tradicional, se é CGI, que vai determinar o sucesso dele entre o público. Críticos, então, odiaram (eu odiei); mas a Disney precisava urgentemente fazer milhões com seus filmes no mercado que dominou nos anos 90 diante das novas concorrências. Os executivos de maneira ingênua acharam que isso resolveria, sendo que a deficiência real, provavelmente, era no departamento criativo do estúdio.
E aí vieram abortos, né. Nem sei se você, leitor, vai se lembrar desses filmes, mas vamos lá. A primeira bomba foi Chicken Little (2004), que ainda era digno por conta o humor afiado e pelas referências à cultura pop (tem piada com Barbra Streisand e Star Wars). Aí veio Selvagem (2006), que era a história de pai e filho, leões, enfrentando conflitos de convivência, que subitamente, ao lado de uma girafa, uma cobra, e um koala, saem do zoológico em Nova York e são acidentalmente despejados na mata selvagem, desafiados a se adaptar àquele ambiente. Algum filme parecido?! PERAÍ, DISNEY!!! E veio Bolt (2008), com John Travolta e Miley Cyrus, a história de um cachorro astro de TV, que quando atua com a sua dona, acredita que realmente está salvando aquela garota. Uma boa premissa. E os roteiristas ainda conseguiram banalizar isso, não apresentado ação suficiente no terceiro ato como o início do filme propusera de forma eletrizante (e eu não to falando de bombas explodindo) e não aproveitando a relação entre o cachorro e a garota, entregando um final totalmente MindFuck.
O sentimento Anti-Disney, então, se tornou comum na maioria das pessoas que acompanhavam a grade do estúdio (principalmente aquele relacionado à animações, o The Walt Disney Animation), a partir dos anos 2000, diante do declinável interesse por parte da equipe criativa de desenvolver enredos tão envolventes e personagens tão memoráveis (se não for pedir demais) quando O Rei Leão (1994). E foi o que, em partes, me cegou enquanto eu assistia a comédia Frozen de 2013, e é o que ainda cega muitas pessoas que falam por aí das produções da empresa. Eles vão no YouTube e comentam "Frozen sucks" nos vídeos relacionados, "Frozen é uma bosta".
No final dos anos 2000, num acordo bilionário, a Disney comprou a Pixar e permitiu que o seu chefão, John Lasseter, assumisse na gigante o cargo de diretor criativo. Todo filme da Disney agora teria o dedo dele. E que dedo! Assim que Lasseter assumiu o cargo, tomou, na minha opinião, uma das decisões mais lindas: fazer um filme em animação tradicional. É de despejar suor másculo pelas glândulas oculares. Foi A Princesa e o Sapo (2009), um musical belíssimo ambientado na Nova Orleães da Belle Époque que apresentou a primeira protagonista negra da história do estúdio.
Agora a Disney apresenta ares de mudança. Com A Princesa e o Sapo, provou que ainda tem dignidade e respeita os planos pintados à mão nos quais ergueu o seu império. Com Enrolados (2010), provou que histórias sobre princesas e ladrões nunca deixam de ser cativantes. Com Frozen (2013), um filme que não preciso de muitas linhas pra dizer que é belíssimo, provou que ainda tem muito pra nos oferecer, singelos e exigentes admiradores. Foi assim nos anos 90, e tá sendo assim atualmente.


O sentimento anti-Disney se dissipa aqui; não tem mais razão pra existir. Disney, nós te amamos. :D

Nenhum comentário:

Postar um comentário